terça-feira, 17 de abril de 2012


Amigos de todos os tempos!
Como é bom sentir os sabores dos velhos tempos de novo. Eu nunca apreciei direito, com cuidado. E ia colocando tudo na boca e engolindo, sem pensar se eu poderia voltar um dia a sentir todo aquele gosto novamente. Era desse jeito com a banana amassada com nescau, onde todas as minhas atenções estavam voltadas para a Punk, a levada da Breca na TV. Ou com as acerolas do sítio do Vó. Naquela época, eu estava era mais preocupada em me enganchar no galho mais alto antes dos meus primos, do que sentir o gosto daquelas bolinhas. Assim como o preocupação sempre girou em torno de como convencer minha mãe a fazer meu quarto igual ao da Punk.
Isso aqui tá parecendo salada de frutas, eu sei, mas a questão não é essa, antes que alguém me acuse de louca e venha me explicar que eu ainda posso encontrar esses sabores no mercado ali do lado. O que eu sinto, e sinto muito, é que de fato, a gente se acostuma a não sentir mais os gostos. Trocamos a banana por qualquer frutinha sem graça. Evita acerola pra não ter enxaqueca, no meio de outras inúmes negociações infelizes. E o que começou na cozinha, foi se alastrando pela minha vida, até que eu me acostumei a não dar mais boa noite pros meus pais antes de ir dormir, a desistir antes de lutar, a não ter paixão nos relacionamentos, a aguentar desaforos de amigos,a ter o estilo de vida meia-boca mesmo tendo potencial pra ter algo melhor, com o trânsito caótico. Eu jurei, aos 15 anos, que nunca me moldaria, mas hoje eu me acostumei a votar no político menos corrupto, com o gosto do alcool, com o fast-food, com o salto alto, com o dar e não receber. Me acostumei a ter iniciativa quando a real vontade é não precisar fazer nada, a levar sempre a culpa para evitar discussão, a engolir o choro porque eu já cresci. Me acostumei com os dias passando cada vez mais rápido e com a idade chegando.
Então, quando o fim da linha chegou, eu me toquei que estava funcionando em modo automático há muito tempo. Aceitando, naturalizando, engolindo os caroços. Tapando o sol com a peneira. Eu não precisei ir para a cama de um hospital ou ter dias contadinhos. Eu simplesmente me vi correndo às cegas, prendendo-me à coisas e situações desagradáveis por comodismo, por convenção. Vi a minha vida passando e nem passei a mão na bunda dela. Não aproveitei o que, de fato, devia e me dava prazer. Fui simplesmente consentindo.
Eu também pensava que esse quadro não podia mudar, que era um utopia. Mas passei a resgatar os sabores velhos. Eu realmente havia esquecido como era ser a prioridade de alguém, de como era relacionamento familiar, de como meus amigos deveriam fazer parte da minha vida. Comprei um biquini novo e mergulhei no mar como se aquele fosse meu último mergulho. Comprei um picolé e chupei até sentir o gosto da madeira do palito. Fui vivendo desse jeitinho. Vou vivendo desse jeitinho E eu vou viver tudo o que eu posso ainda, intensamente. E eu só vou concordar com aquilo que me convém. E no momento atual, eu já não concordo mais com o tempo perdido e lamentação. Eu vou escrever a melhor história!

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